Bicho de Sete Cabeças
Hoje a Tv Globo de Televisão fez jus ao fato de existir por conta de uma concessão pública. Exibiu o premiado “Bicho de 7 Cabeças “, o primeiro longa metragem dirigido por Laís Bodanzky, baseado no livro de Austregésilo Carrano. O filme rompe uma longa e tediosa sucessão de produções com nível mental de segundo grau. Mal cursado. Nem nordeste, nem farsas históricas, muito menos “agitadas paqueras” dos galãs da moda.
Porra, como é bom ver os cumpadi mandando ver: Jairo Mattos, Cesana, Carlos Careqa, Caco Ciocler, Tonhão e o excepcional Linneu Dias. O Linneu merece um texto à parte. Só vou dizer que durante os 10 anos em que fomos amigos, sempre que ia fazer um papel, ligava pra ele e dizia: Ô Linneu, vou fazer tal personagem, diga alguma coisa. Ele vinha sempre com uma só frase ou algumas poucas considerações que eram um tiro de diamante na testa de tanta lucidez. A partir daquilo, eu trabalhava. Sinto falta dele e de nossas conversas.
Voltando ao filme. Conheço Laís de longe, desde meus dezoito anos lá do bairro da Casa Verde (onde, aliás foi filmada toda a primeira parte do filme). Ela fazia uns curtas com um amigo meu e falávamos muito sobre ela. Era difícil alguém da classe média cruzar o Tietê. Fiz o teste para um papel neste filme, o psiquiatra do segundo hospício. O referido durou uns quarenta minutos, a Laís me apertando numa puta improvisação e o Luiz Bolognesi (marido dela e roteirista do filme) com uma pequena VHS. Ela me espremeu mais que a um carrapato. Foi du caralho! Rolou a trampo, mas mesmo que não tivesse rolado, só isso bastava. Como é bom encontrar este tipo de gente que não fica só de salto alto e pula junto com você pra dentro do buraco. Diante dela o cara que só gosta de fazer pose, de alguma maneira, atua.
Uma curiosidade: alguns papéis de gente normal, como os policiais, foram feitos por esquizofrênicos que trabalham com teatro.
Depois de muito tempo, eu estava no Aeroporto de Salvador e alguém tapou meus olhos. Me virei e era ela. Pediu desculpas por ter tido que cortar a duração de muitas cenas, inclusive aquela que fiz. Imagine um diretor de cinema fazendo isso! Nem tente imaginar, isso não existe. A verdade é que ela tinha em mãos um filme de 4 horas. Obviamente, tempo demais para os padrões do bom e velho mercado. Laís, mesmo que você tivesse cortado a cena toda, eu é que agradeço.
Fazer parte de alguma coisa inteligente neste país é um privilégio. Além de ser um grande filme, é um libelo antimanicomial. Nesta época de felicidade química, nada mais atual. Mas quem quer saber disso no Brasil?
Escrito por sergio mastropasqua às 00h05
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