
DISCURSO DA SERVIDÃO VOLUNTÁRIA
Comecei a fazer teatro num colégio estadual da Casa Verde aos 16 anos, graças ao delírio de um professor de matemática. Minha namorada a época ia fazer a Julieta e pensei: Êpa, quem vai beijar sou eu! Tosco. Assim mesmo. Entrei num teatro com ingresso pago depois de me apresentar em três espetáculos. Caipira de tudo. Fico surpreso de ter me tornado um ator profissional. Faço isto há vinte anos. Trabalhei como boy, metalúrgico, forneci a mais-valia para o sistema financeiro nacional em três bancos. O turno era de seis horas e dava pra estudar e fazer teatro. Ou seja, quem sempre pagou minhas contas fui eu e mais ninguém
Subtraído o entusiasmo juvenil, vem a pergunta: qual é o fundamento material do que faço? ou melhor: quanto é que o puteiro fatura? Não há uma associação, Apetesp, ONG, sindicato que tenha estatísticas sobre a atividade teatral numa das maiores cidades do mundo? Não, nunca vi. Aí meus amigos vão dizer: Mas pra que? Nós somos os arautos do sacrifício, geniais, artistas... Será que nossa insignificância é tão grande que não merecemos nem um estudo econômico?
A verdade é que nossa vocação é para o amadorismo, ou como alguém já disse: teatro é ação entre amigos. Com amigo é bom fazer churrasco, tomar cervejas, mas teatro também? Adoramos ostentar nossa pobreza, o chapéu na mão, o senso de confraria. Estamos reforçando as alternativas: trampar na TV ou fazer peças "padrão Sesc" com ingresso mais barato do que um Big Mac.
O último assunto a ser abordado quando você é convidado para fazer uma peça é a grana. Pior: Esse assunto é um tabu! Se o desavisado tocar no assunto é um traidor, pequeno-burguês e filho da puta. Tem de ir trabalhar por amor a camisa. O que ninguém explica é como você vai comprar a camisa. Então o que rola é o seguinte: economicamente, teatro é um negócio pra ser feito por gente que trabalha de graça! Pra gente da classe média que não têm mais o que fazer, ou se acha outsider e bonito, ou qualquer coisa que o valha. Acho que 90 % dos atores em atividade em São Paulo têm até 30 anos. Acima desta idade dá pra fazer uma lista de quem sobrou. E andam batendo cabeça pra pagar o aluguel.
Se o projeto não tem grana, beleza! Se gostar, faço! Agora, ficar nesta merda infantil de não tocar no assunto, é que me enche o saco.
Aliás, fica a dica: quer armar um circo sem pagar o pessoal? Faça teatro: o amadorismo apresenta resultados surpreendentemente bons e a mão de obra é quase ou totalmente na faixa!
Escrito por sergio às 23h24
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