
NOSSA VIDA NÃO VALE UM CHEVROLET
Ontem fui ao Centro Cultural Vergueiro assistir a clássica peça do Grupo Cemitério de Automóveis. Estava devendo isto a mim mesmo. Sou um cara que tem essa falha de comportamento: faço teatro mas não costumo assistir não. O pior é que sempre que assisto a experiência é altamente satisfatória. Mesmo peças ruins. Obviamente não é o caso deste trabalho.
Em perspectiva, o Grupo Cemitério de Automóveis mudou a mentalidade do chamado teatro alternativo, ou experimental, ou marginal ou o diabo de denominação que se queira dar a essa atividade. Na verdade, assistir a qualquer peça do Grupo nos põe diante de uma paixão e de um sentido de verdade incomum a maioria dos grupos em atividade. O que realmente é impressionante e modificador é o talento estético do Mário, que escreve, dirige, ilumina e faz a trilha da maioria dos espetáculos. Os times que ele escala para a realização dos trabalhos é produto de um grande conhecimento, flexibilidade e admiração por atores que vieram de diferentes linhas de pensamento e convicção estética. O Grupo veio de Londrina para mostrar e exercer seu trabalho em São Paulo. Ele teve a manha de conquistar corações e mentes e se deixou conquistar também. Antes neguinho levava um ano ensaiando um negócio que as vezes nem era levado à cena. Ou quando rolava, tinha um resultado descarnado, cansado e vacilante. Com o Cemitério não te esse papo não. É pau dentro!
Acho que toda obra dramatúrgica tem de forjar um encontro com a velha realidade. Seja o que for. Nossa Vida não Vale um Chevrolet, se vale de referências vindas do cinema, realidade urbana, diálogos de gibis, rock, comicidade patética e silêncios, sim os silêncios. As transições de cenas têm um vagar e hiato que nos impõe uma suspensão. Me fez pensar em teatro clássico e rigoroso.
Ontem lá no Centro Cultural tive a experiência, incomum, diante do espetáculo e do excelente trabalho de todo elenco, de retomar todas minhas experiências de trabalho desde meus quinze anos. Todos os papos, todos os acertos e erros, diferenças sociais, dificuldades e alegrias. É um tipo de trabalho que retrata e resgata muitas coisas que muitas vezes foram blindadas no teatro classe média alta que se costuma fazer. Sem falar numa profunda poesia da solidão.
O melhor foi falar com o Wiltão, que é ator do Grupo, mas que ontem estava na platéia e disse: Sergião, eu tava muito nervoso, se a luz ia acender, se a rolha do vinho ia sair, é foda ficar de fora!
É isso aí Wiltão, quando o time está jogando e a gente veste a camisa, queremos é dar canelada, brigar com juiz e se possível fazer gol!!!!
Escrito por sergio às 16h19
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