
O CARA QUE NUNCA PASSA
Estive na estréia de “Adivinhe quem vem para Rezar” na última quinta-feira no Teatro Procópio Ferreira. Não sou crítico, portanto não vou falar de direção, texto e cenário. Vou ao que interessa: Paulo Autran. Tive a sorte de ser seu irmão (Antônio), na montagem da Cia. Armazém de Londrina , para “A Tempestade” do velho Bill Shakespeare. Eu tinha uns 28 anos e ele uns 70. Perguntei a ele como é que poderia fazer seu irmão. Ele me disse que os teatros eram gigantes e era só eu deixar crescer a barba e passar pasta de dentes pra tudo ficar branco. E lá fui eu, com meu visual mentolado fazer o trampo ! Mesmo que tivesse que só entregar uma carta ou mesmo ser o contra-regra, já teria valido a pena. Ficava na coxia repetindo o jeito dele dar realidade às falas. Show de bola! Ele tem uma maneira de ataque, faz um movimento circular no meio da frase e termina com as vogais num declínio seco. Há um tom de verdade e ironia, sei lá.... Não dá pra descrever.
Paulo representa uma época em que o ator lia ficção e poesia e não só livros teóricos escritos por gurus ou acadêmicos. Havia uma formação para a opinião pessoal e não para constituir “células de patrulha artísticas”, como aquelas em que vivi no final dos anos 80. Além dele ter trabalhado no melhor período da dramaturgia do século XX.
O fato é que o público sempre vai babar para “The man”. Ele merece. Fala o óbvio, que fazer TV é chato e burro. O cara já foi homenageado pra cacete e apesar de detestar um ranking em qualquer assunto na vida, se querem dizer que alguém é o melhor ator de teatro em atividade no Brasil, o caneco está em boas mãos. Vale ressaltar mil vezes: ATOR DE TEATRO!!!
Ele foi um dos primeiros atores a sair do eixo Rio - São Paulo e estrear seus espetáculos em Londrina e Curitiba nos anos 60. Quanto atuei com ele por lá, até o governador veio beijar a mão do velho.
É isso aí meu irmão! Você fuma mais que mulher desquitada, têm algumas pontes de safena, mas passa a perna em inteligência e crítica em muito marmanjo de 25.
Faz um trampo atrás do outro, ganha muita grana e o público gasta essa bolada pra ver acima de tudo um grande ator de teatro! E ponto final.
Escrito por sergio às 15h45
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