
SIRIRI NA TELA
Antes da devastação a que foi submetido o ecossistema da Terra da Mandioca, nomenclatura de Macunaíma para a gloriosa cidade de São Paulo, era comum, em noites quentes, a presença dos cupins com asas em lâmpadas e, principalmente nas telas das velhas Colorados RQ e Telefunkens que habitaram minha casa na infância. Eles apareciam e ficavam lá rondando as fontes de luz, perdidos, a espera da aniquilação. Soube mais tarde que alguns insetos se orientam pela luz refletida pelo satélite empoeirado, desde os tempos em que a lua era a fonte de luz noturna que dava o maior ibope no planeta,
Estive no Rio de Janeiro e a sensação, ao olhar o roteiro de peças em cartaz é de que a grande maioria da atividade teatral na cidade maravilhosa, segue a lógica dos siriris. Tal qual a TV, a produção se orienta pela presumida capacidade de dar ao público “aquilo que ele quer e já viu na TV”. E o principal instrumento para este fim é o bom e velho gênero cômico. Vale notar a forma como isto se aplica. Não estamos falando de enredos ou do patético do gênero. Estamos falando de espetáculos que se valem de quadros com tipos, do tipo Planeta dos Homens e afins. Bordões físicos e de texto. Até aí, estamos numa fórmula consagrada desde os tempos do rádio (que é a grande fonte de toda a teledramaturgia brasileira). O problema é que agora o assunto... é a televisão!!!! Como praticamente eu não assisto TV aberta, exceto o impagável Gazeta Esportiva, não consigo entender a maioria das piadas. Vai chegar um tempo em que tipos como eu teremos que levar a revista Contigo como referência bibliográfica. O que poderia ser uma piada interna, tornou-se código consagrado da massa, como se não fosse possível ter a experiência cômica diante do enredo de um personagem que se nos apresenta ali, no palco, após o terceiro sinal.
É claro, que num país onde neguinho lê e na maioria das vezes não entende o que está escrito, o universo da TV seja uma possibilidade de código unificador. E se o ator em questão tiver popularidade, há a experiência adicional do espectador confirmar que ele existe “de carne e osso”, o que quase sempre se reflete nos preços praticados pela bilheteria. E uma espécie de maldição paira sobre os espíritos de todos. Mesmo os atores não populares, convivem com esse “encosto”, como se uma carreira neste ramo fosse um caminho , onde o ápice se encontra em obter este lugar olímpico da popularidade. Não sou ingênuo de desprezar esta possibilidade. Mas ela não é a única. E este problema não está na indústria da TV. O problema está nos agentes de criação do teatro que, cada vez mais, fazem o palco parecer um estúdio. E alguns siriris urbanos, confusos, acreditam que o Tubo catódico é e sempre foi a Lua!!
Escrito por sergio às 16h50
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EXCESSO DE CARGA
Esta semana fui ao Rio de Janeiro fazer uma participação no seriado Carga Pesada. Pra variar, o papel e de um sujeito nada honesto. Tenho a sensação de que este tipo de trabalho é como entrar num jogo aos 42 minutos do segundo tempo, com um escanteio a favor de meu time. Lá vai você pra área tentar alguma coisa. Só que seu corpo está frio, pretende fazer alguma coisa, entra com tudo na bola, mas até o gandula está mais aquecido e “no jogo” que você. Dá até uma certa gana de sujar as chuteiras, mas prazer que é bom, nada! Vale notar o profissionalismo e a camaradagem dos atores Antônio Fagundes e Stênio Garcia. Com a justa medida de quem já têm alta quilometragem no trampo, há no olhar deles aquela pegada do menino que eles foram. Nem vou falar de personagens, roteiro etc... Não adianta mesmo. E o melhor nem é realizar a tal da participação, mas presenciar a amizade e a serenidade do encontro destes dois atores. A televisão tem uma sintaxe e um modo de trabalho que, sinceramente, não domino. Me sinto como corretor da bolsa de valores no primeiro dia de trabalho. O negócio é tocar o puteiro e não ver no que dá.
Escrito por sergio às 16h10
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TETAS DA VIÚVA
Do jeito que a “classe teatral” trabalha, não há, nos próximos 600 anos, a menor possibilidade da maioria esmagadora da atividade de produção teatral ser mantida pela clientela, ou seja, pelo bolso do espectador. Aí vão duas dicas de “fomentar”, no caso “dar uma força” e não “fazer o camarada passar fome”, como insistem algumas mentes argutas. Vale notar que as tetas do Estado não andam muito generosas não. O primeiro, são 30.000 pratas da Funarte e as inscrições acabam no próximo dia 26. A outra possibilidade vem da gloriosa Secretaria Estadual da Cultura, que ainda não tive saco de ler. Aí vão os endereços:
Fomento Funarte : www.funarte.gov.br
Prêmio Flávio Rangel: www.cultura.sp.gov.br/
Escrito por sergio às 01h27
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