galo cego - sergio mastropasqua


Meu grande amigo Igor Zuvela, à frente do elenco da peça "Hotel Lancaster" de Mário Bortolotto

 

ET IN ARCADIA EGO

 

Num dos quadros de Nicolas Poussin, têm uma turma neo-clássica observando o que parece ser uma ruína. Todos são jovens e pareciam , despreocupadamente,  celebrar a vida. O quadro retrata o momento onde todos estão surpresos tentando decifrar a  frase gravada na pedra: “et in arcadia ego”, “até mesmo na arcádia eu (a morte) existo”. Num detalhe da tela, minúsculo,  há um crânio. Quem vê o quadro desavisado nem nota. Com a gente também é assim: apesar da luta e da perspectiva geral sempre ser assertiva, ela, a dona do abraço final, está lá.

 

Sou um cara que não “rega e cuida” de amizades. Não acredito em jardins. Quando gosto de alguém tenho a visão de floresta. Está lá, é forte e não precisa de cuidados diários. Longe ou perto,  meus amigos sempre estão em minha mente e coração. O tempo para eles não é histórico, é  vertical. Posso ficar sem ver um amigo durante anos e quando o reencontro é como se fosse ontem.

 

Falei com Igor Zuvela no último domingo três vezes ao telefone. Acordei cedo  e fiz um projeto pra ele mandar pra Funarte. A velha batalha. Queria fazer “Dois perdidos numa noite Suja”. Ia me encontrar com ele pra entregar o material. Liguei e  aí soube que o Igor  passou mal e foi internado. O resto foi silêncio.

 

Igor era o tipo do cara que me deixava com “sangue nos olhos”. Você podia ir pra guerra com ele. Na hora do tiroteio ele ia estar do seu lado mandando ver! Era inteligente, rápido e talentoso, como poucos.com quem tive a honra de trabalhar. E se tem uma coisa que admiro num sujeito é a competência. Ele dominou, desde sempre, os fundamentos do trampo. Têm gente que vai viver 100 anos e 20 plásticas, e nunca vai saber do que se trata. E o principal: era ótimo pai!

 

Tenho certeza que o Igor está mais surpreso do que todo mundo! Porra!!!!! Meu amigo, o negócio é você, daqui há um tempo,  marcar um almoço (não se esqueça que o velho é vegetariano) com  o Bernard Shaw e fazer pra ele  aquela cena do Major Bárbara. O velho vai adorar. Encontre o Maquiavel e mostre como se faz um papel quase sem falas,  ser quase o protagonista de sua “A Mandrágora” .Depois, quando você estiver mais sossegado e com saudades de subir num palco, procure o Plínio Marcos e peça pra ele mesmo te dirigir em “Dois perdidos”.

 

Daqui há uns 40 ou 50   anos (estou sendo otimista) todos nós estaremos  por aí e continuaremos nosso trampo juntos. Fala pro Shakespeare que tem um brasileiro da Casa Verde que até acendia vela pra ele. Veja se ele topa ser o diretor. Vamos formar uma baita Companhia de teatro. Sem editais e chapéu na mão. Manda ver na pré-produção! Ah. pode dizer pro Marlon Brando que a gente não vai pagar nada, mas deixa ele fazer um papel pequeno.



Escrito por sergio às 15h53
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